A crença em algo imaterial capaz de intervir na vida dos homens, em seres superiores, deuses e Deus faz parte da história da humanidade. Também faz parte dessa história a busca de compreensão da realidade e, à medida em que a racionalidade humana evolui, as explicações fantásticas e míticas para os eventos naturais, por exemplo, dão lugar a explicações racionais e científicas, distanciando a verdade do misticismo e quebrando as legitimidades baseadas nas crenças.

Mesmo assim, ainda hoje, com as tecnologias e a ciência se desenvolvendo a passos gigantes, a crença, a fé e as religiões, de qualquer matiz, continuam a fazer parte da vida humana em qualquer parte do planeta. Alguns atribuem esse fato à ignorância, a baixos graus de civilidade, a processos de dominação ideológica. Sim, eu diria que todas essas causas existem, mas penso que elas influenciam mais na forma de se crer e não invalidam a essência da crença e da fé que, fazendo parte da essência do ser humano, o aproxima disso intuitivamente, e então, a partir de sua condição material, histórica e social, desenvolvimento intelectual e interesses se organiza nesse ou naquele sistema religioso, ou mesmo em sistemas não religiosos.

A crença ou a assunção de uma metanarrativa, de um “projeto maior”, que dê sentido à nossa pequenez individual diante da natureza, da história, do universo, do cosmos, penso, é parte da nossa essência humana, e é justamente a negação disso que nos desumaniza e produz a sociedade atual, pós-moderna. Sem sua essência o que é o homem ou a mulher? Mas o que é essa essência? É aquilo que te impede de ser nada! É aquilo que te dá sentido, ao mesmo tempo que dá sentido ao outro e aos outros, em si e em conjunto, ao mesmo tempo!

A fé é justamente a motivação, a certeza e o desejo, em constante tensão e triangulação entre si, que permite transformar todo idealismo presente em nossa essência em realidade, pra si, pro outro e para os outros, em si, em conjunto, ao mesmo tempo! Sem esse elemento da transformação individual e coletiva a fé não terá efeito concreto e servirá apenas para o alívio de uma consciência individual. A verdadeira fé é aquela que pede, mas ao mesmo tempo constrói condições, quer, mas faz acontecer, e tendo olhos de ver e ouvidos de ouvir, encontra o que precisar.

Essa não costuma faiá.

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