“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim; é um pomo exótico que não pode ser repartido, podendo entretanto prover igualmente a todo mundo; onipresente, o tempo está em tudo;

[…]

rico não é o homem que coleciona e se pesa no amontoado de moedas, e nem aquele, devasso, que se estende, mãos e braços, em terras largas; rico só é o homem que aprendeu, piedoso e humilde, a conviver com o tempo, aproximando-se dele com ternura, não contrariando suas disposições, não se rebelando contra seu curso, não irritando sua corrente, estando atento para o seu fluxo, brindando-o antes com sabedoria para receber dele os favores e não a sua ira; o equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas, não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é;

[…]

pois só a justa medida do tempo dá a justa natureza das coisas […]”

Este excerto da novela Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar, é o relato de um dos sermões costumeiros do patriarca daquela família e mesmo passando uma mensagem de contemplação, resignação e recato, contra a qual um dos irmãos se rebela, é também, pra mim, um dos trechos mais profundos de tudo que eu já li. Sempre lembro, reflito e retorno à leitura desse trecho, em diversos momentos e situações.

Em mim, esse sermão não provoca a resignação e contemplação que o pai solicita à sua família, ele remete, justamente, à busca da quantidade de vagar e espera que o tempo nos exige, de modo a fazer o melhor no melhor momento.

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