A ideia de que o patrimonialismo é uma das principais influências do padrão organizativo estatal no Brasil é muito forte dentre as teorias sobre a formação e caracterização do Estado Brasileiro, e que encontra, no meu ponto de vista, boa correlação com a realidade política nacional, que está, de fato, profundamente marcada por uma prática social circunscrita no patrimonialismo.

Conceito de grande importância na obra de Max Weber [1864-920], patrimonialismo, grosso modo, se configura como uma forma de dominação tradicional em que não há distinção entre o público e o privado. Outras duas formas de dominação estão presentes na sociologia política weberiana, a dominação racional-legal e a dominação carismática, formas pelas quais se estabelecem relações sociais em que a autoridade, exercida e aceita, é legitimada sobretudo por quem sofre a influência da dominação.

Associado aos primórdios do serviço público imperial e ao período da primeira república, ou seja, a tudo que é anacrônico e pejorativo na organização estatal, como República do café com leite, coronelismo e senhores de engenho, o patrimonialismo não deixou de ser traço marcante no Estado brasileiro e vem, sendo ressignificado ao longo do tempo, mesmo sob “forte ataque” das vertentes da administração pública que pretendem superá-lo, seja a burocrática, gerencial ou aquela conhecida como novo serviço público.

Atualmente, ideia de superar a simbiose entre público e privado na administração pública vem sendo desenvolvida com forte apelo à racionalidade técnico-científica focada em resultados associada a flexibilização dos processos de decisão, porém, até as eleições municipais de 2016, essa ideia estava circunscrita às esferas de poder identificadas como técnicas. Nas eleições de 2016 é possível observar um fenômeno de candidatos que não mais prometiam nomear equipes por critério técnico e não político, diziam-se eles mesmo gerentes, técnicos e administradores e muitos trazendo no currículo seu sucesso no mundo empresarial para administrar as cidades sem “fazer política.

Expressão da negação da política como estratégia de despolitização para diluir pautas sociais estruturantes, fortemente associadas a esquerda, a qual foi associada pela mídia à corrupção, o fenômeno dos políticos empresários poderia ser considerado, a título de hipótese para gerar uma reflexão, um patrimonialismo ressignificado, pois o que se pretende, em ultimo grau, é administrar o bem público como se administra a empresa privada e não para melhorar a vida do povo, mas para retomar a hegemonia do poder Estatal para promover reformas em um programa baseado em privilégios, desigualdade social e apropriação privada do Estado, antagônico a um programa baseado no direito, na diminuição da desigualdade social e socialização/democratização  do Estado.

Se isso for verdade, estamos diante de um loop histórico. Será?

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