O alarme do rádio relógio disparou às 4:20 da manhã, mas eu já estava acordado, preocupado com os relatórios pra entregar, passei a noite trabalhando, pensei em dormir porque o sono bateu ao desconectar a mente do trabalho pra desligar o alarme que ameaçava acordar o prédio todo, mas se dormisse não acordaria, então o jeito era me manter acordado, mesmo que tudo chamasse para a cama. O tempo estava brusco, frio, ventava muito e o dia demoraria pra amanhecer. Enquanto passava o café, liguei a TV e a previsão indicava chuva com raios e ventos fortes. O sono apertou…Tomei uma xícara de café e fui tomar banho pra acordar.

Enquanto me enxugava após o banho, imerso no vapor do chuveiro quente ouvi uma notícia inusitada e que ninguém esperava acontecer: um incêndio provocado por um raio começava a consumir as plantações na região, a garoa que caia aumentava a fumaça e o vento, além de aumentar a destreza com que as labaredas se espalhavam nas plantações, trazia a fumaça pra cidade, muita fumaça.

As proteções contra incêndio eram o que tinha de mais moderno. Para-raios posicionados em locais estratégicos e milimetricamente calculados, os prejuízos de um incêndio como o que estava iniciando eram incalculáveis, ou pelo menos era o que eu achava, pois no caminho pra casa passava pela estrada que cortava a plantações e o que se via era muita tecnologia de proteção contra incêndios e como não prestamos atenção no que é corriqueiro, simplesmente via aquilo e ignorava, mas a partir do que ocorreu nesse dia eu compreendi os motivos de tanto cuidado.

A chuva continuava, mas não a ponto de ajudar a apagar o incêndio, as poucas gotas que não evaporavam, chegavam mais próximas do solo e geravam mais fumaça, que era levada pelo vento o lado oposto ao do meu bairro, o que atrasou a minha percepção do que realmente estava ocorrendo. No caminho para o trabalho eu percebia a confusão do lado de dentro das grandes cercas vivas que protegiam as plantações, mas ainda não tinha toda a dimensão do que acontecia.

Ao chegar no centro da cidade entrei na nuvem de fumaça que parecia uma neblina e me espantei com o que vi. O caos, a correria e a tensão das manhas dos dias úteis, o trânsito denso, os corredores de motos, buzinando, o ônibus lotado, as caras feias de poucos amigos de qualquer pessoa que cruzavam meu caminho, deram lugar a andarilhos diletantes, cumprimentos simpáticos e conversas amistosas, riso fácil e nenhuma pressa pra chegar a qualquer lugar. As estações de rádio noticiosas transmitiam músicas alegres, o que fazia algumas pessoas mais extrovertidas dançar enquanto andava ou esperava um café na fila da padaria.

Eu mesmo fui tomado por uma paz e vagareza que fazia muito tempo não experimentava, afrouxei o nó da gravata, olhei para tudo aquilo, respirei fundo e quando percebi o que estava acontecendo ouvi ao fundo o som irritante do rádio relógio. Eram 4:20 da manhã e eu cai no sono em cima do computador.

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