O sol ainda iluminava a varanda quando as tarefas do dia já haviam sido todas cumpridas. Como de costume, levantei cedo, preparei o coador de pano, e enquanto a chaleira esquentava a água do café, saí no quintal para trocar a água e a comida dos cachorros. A recepção era sempre uma festa.A cachorrada sempre aprontava algo que me fazia rir. Era a deixa: fazia um carinho atrás da orelha e já dava uma pequena bronca pra poder colocar a comida no lugar. O barulho do vapor na chaleira denunciava que o café reclamava ser coado para eu poder, então, iniciar a rotina do dia. Embora estivesse aposentado há anos, eu ainda trabalhava, pois, como dizia meu avô com aquela voz de conselheiro: “trabalho é tudo de útil que fazemos no dia e na vida”… Lembrando disso até ri agora, porque eu sempre replicava dizendo: “mas o quê e quem define o critério de útil e inútil?” e a tréplica finalizava a disputa: “Ara, lá vem você com essas perguntas de comunista”.

O sol ainda iluminava a varanda quando as tarefas do dia já haviam sido todas cumpridas. Sentei pra contemplar o entardecer, os cachorros vieram fazendo festa, mas se aquietaram quando entenderam que o momento era de tranquilizar. O mais novo, inquieto e viril, ficou apenas alguns segundos e partiu para suas costumeiras aventuras no quintal. A mais velha, companheira de muitos anos e herdeira do lugar de outras tantas parceiras, ficou deitada no sol mantendo seus olhos fitos em mim, acompanhando o lento vaivém da cadeira de balanço.

O sol então, já não iluminava a varanda, mas cortava o quintal despedindo-se. Já não aquecia também minha companheira, que não me olhava mais, pois dormia um sono profundo, se valendo do calor do chão que o sol havia acabado de abandonar. Com os afazeres terminados eu me encontrava meio dormindo e meio acordado. O quase-silêncio era admirável! Nem vento tinha.  No máximo, o barulho dos passarinhos, passarinhando.

Comecei a observar os detalhes de tudo a minha volta. Parecia que meus sentidos tinham ficado melhores. Enxerguei a correição de formiga-lavapé bem perto da grama e logo pensei que ia chover, mas olhei pro céu e estava sem nuvens. Segui o caminho das pequeninas e, então, a explicação: elas foram buscar comida e carregavam juntas um pedaço de gafanhoto que, provavelmente, foi partido por um dos cachorros que adoram caçar tudo que é pequeno e se mexe rápido. Admirava também o sono da minha companheira labradora e lembrei de como ela era tão pequenina e fofinha… sorri com nostalgia, homenageando a infância e a juventude, a dela e a minha, que há muito tempo estava apenas nas fotos guardadas em álbuns, nas paredes da casa em porta-retratos ou nas nuvens cibernéticas.

O sol já não iluminava o dia e a noite estava  começando. O frio chegou com um vento leve e constante que, ao bater no meu rosto me acordou. Como dizia aquele meu avô anticomunista, olhei “dum lado e doto”, pra me ambientar, afinal, tinha cochilado sem perceber. O casal de labradores estava deitado nos meus pés, mas não se mexeram quando eu acordei. Tentei olhar no relógio da cozinha para saber as horas, mas não consegui, avistei minha filha, que sempre me chama pra jantar quando eu cochilo na varanda. Ela chegou, como de costume, colocou as mãos nos meus ombros e disse: “pai, a janta tá pronta”.

Eu levantei e fui em sua direção pra apoiar minhas mãos em seu ombro e acompanhá-la até a cozinha… mas os cachorros não se mexeram e ela também não se voltou pra mim. De repente, me vi ali, sentado na cadeira de balanço, os cachorros nos meus pés e minha filha ao celular, agoniada dizendo: “Mãe , o Pai fez a passagem”.

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