liberdade-pensamentoO movimento Escola Sem Partido foi criado em 2004 e pretende uma escola sem doutrinação político-ideológica. Consideram que existe um abuso da liberdade de ensinar. Seus apoiadores e militantes montaram uma rede que vem servindo como um lobby nos legislativos de todos os níveis federativos no país, que apresentam leis contra o que consideram abuso da liberdade de ensinar.

Se fosse possível uma neutralidade e esse movimento fosse neutro, como gostaria que a educação fosse, ele falaria de toda e qualquer doutrinação, porém, em seus discursos, existe apenas uma doutrinação, a “doutrinação de esquerda”, que inclui, além de temas tradicionais como religião, história, economia e política, temas mais contemporâneos, como minorias, gênero, raça e direitos humanos. Segundo os defensores desse movimento, a doutrinação [de esquerda] consiste em impingir visão própria de mundo, de professores militantes, em sala de aula, ” valendo-se da liberdade de cátedra e cortina de segredo da sala de aula”.

Com um discurso de liberdade e muita “boa intenção”, esse movimento vem promovendo justamente o que criticam: promovem uma doutrinação, impigem uma visão própria de mundo a qual, no mínimo, negam o que se pode generalizar aqui de “pensamento de esquerda”, ou seja, excluem uma visão. No máximo eles defendem que apenas a visão deles está correta, negando então todas as outras que são divergentes. Em ambos casos, a pretexto de ser contrário à doutrinação, o movimento promove uma doutrinação.

Ocorre que, em vários anos de existência, o movimento vem sendo obstaculizado pela legislação educacional e por uma cultura democrático-libertária na educação formal na relação estudante-professor-escola-sistema. Por isso tal movimento tornou-se um quase-lobby, promovendo plataformas para candidatos ou parlamentares em busca de fama e uma base social conservadora pra chamar de sua. Isso colocou um foco para esse movimento nos últimos anos: propor e tentar aprovar leis impondo restrições à liberdade de cátedra e criando mecanismos de controle e perseguição de docentes. Porém, essas leis, quando aprovadas, caem por meio de ações judiciais, pois são inconstitucionais, uma vez que ferem princípios da Constituição da República.

Não satisfeitos com a saga em transformar as escolas em instituições verdadeiramente doutrinadoras e promotoras de um pensamento único, os militantes desse movimento elegeram os professores como seus inimigos e vem incentivando estudantes a descumprir a legislação, desrespeitar professores e autoridades escolares para criar um clima de  conflito nas escolas, forçando a barra para inibir o uso da liberdade de pensamento, opção pedagógica e de cátedra.

Após a eleição de 2018 a situação tem ficado mais tensa, pois alguns pensam que estão autorizados a descumprir leis consideradas por eles menores que seus objetivos, os quais seriam maiores e melhores que os dos outros e também que aqueles previstos na legislação e programas educacionais construídos até hoje.

Esse texto é um manifesto pessoal de apoio incondicional a todos professores, professoras e profissionais do magistério, que são milhões no Brasil e que trabalham todos os dias para ensinar as crianças, jovens e adultos, brasileiros que sonham melhorar de vida através da educação. Nossa tradição legislativa e postura pública tem sido paulatinamente modificada da presunção da inocência e da boa fé para uma desconfiança geral e estabelecimento a priori de culpa, transformando exceções em regra.

Professores e professoras, sobretudo os que lecionam em escola pública básica, vivenciam condições de trabalho muito ruins e salários terríveis, o que os coloca em alto nível de estresse, pois sua sobrevivência é conquistada com muito penar. Ao mesmo tempo, carregam uma carga simbólica enorme, pois a sociedade espera muito da educação e por consequência espera muito dos docentes, mas, através do Estado, dá poucas condições para que esses possam atender as expectativas. Numa comparação esdrúxula, é como querer que o Schumacher ganhe corridas de fórmula 1 com um carro popular usado e com a revisão atrasada.

A cada leitor que me der a honra de ler esse texto eu faço um pedido: olhe para o lado e veja os professores e professoras que são membros de sua família, amigos e amigas e também lembre dos seus professores. Com certeza são muitos exemplos, muitas lembranças. Perguntem-se se é razoável que eles sejam acusados, a priori, de “militantes doutrinadores comunistas” e  promotores uma educação para “revolução socialista” ou contrária aos valores das famílias nas escolas, como dizem muitos que inclusive foram eleitos recentemente. Essa narrativa é absurda e não se sustenta a uma reflexão honesta baseada nas experiências de cada um de nós e nem mesmo na realidade objetiva. Os Professores são heróis que constroem futuro e não pessoas que precisam ser vigiadas.

Não acredito que haja uma doutrinação generalizada nas escolas, porém, se há alguma ressalva sobre o tema a saída, quando se trata de conhecimento, nunca deve ser restringir e censurar. Não há outra saída que não seja investir na radicalidade democrática da liberdade total de expressão, pensamento e cátedra.

O acesso a todo conhecimento que a humanidade produziu, considerando todos os pontos de vista analíticos conhecidos, é a unica forma de garantir que não haverá doutrinação. A água não ferve sem borbulhar. Por isso a solução está justamente no Professor, único sujeito capaz de promover essa ebulição sem deixar a água secar e mediar o processo de aprendizagem, garantindo o respeito à diversidade.

Aos mestres com carinho, professor é solução e não problema!

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