Via aplicativo de mensagens instantâneas chegam notícias de que, em colégios de Porto Alegre/RS, estudantes resolveram se vestir de preto e fazer manifestação pacífica em desagravo à eleição do novo Presidente do Brasil, considerado por muitos uma liderança de fortes inclinações autoritárias.

Dias depois chega, encaminhado pelo mesmo aplicativo, texto de um médico revoltado com tal atitude e focando especificamente em um colégio particular de alto prestígio. Ele atribui o ato dos estudantes à manipulação de supostos professores esquerdistas que, supostamente, dariam aula no colégio e inclusive seriam maioria. Sua revolta é proporcional à sua convicção de que há uma manipulação generalizada dos professores para que as crianças, futuros médicos, juízes e políticos, fizessem tal ato.

Supondo que essa situação mereça ser resolvida, o médico revoltado chega à conclusão de que não há como resolvê-la por vias legais e democráticas, como sugeriu o Ministro da Educação, e indica resolver na PORRADA! Em sua mensagem revoltada desconsidera completamente as notas oficiais dos colégios, lembrando que há liberdade de expressão e pensamento nas escolas, tendo havido, inclusive, ato a favor do presidente eleito em um deles.

Essa situação é reveladora de vários aspectos do traço autoritário que temos em nossa sociedade, em especial daquele que vamos tratar nesse texto: o autoritarismo estrutural em relação às crianças. Esse é o aspecto “autoriza” o adulto, a agredir uma criança para “educá-la”. Essa atitude que, inclusive, esteve presente em vários discursos do então deputado e atual presidente eleito, na sua vida política pregressa e na campanha, contrasta com a ideia simples, porém revolucionária, de que as crianças e jovens pensam. [leia aqui o que penso sobre sobre o castigo infantil]

Crianças e adolescentes são sujeitos em desenvolvimento

Mesmo depois dos avanços científicos e tecnológicos no campo da Psicologia, Neurociências, Pedagogia, Biologia e Medicina, ainda é presente e forte a concepção de que a criança e o jovem são incapazes, não sabem, não pensam por si, são folhas em branco onde se pode escrever qualquer coisa, ou são esponjas, que absorvem tudo do meio, por isso devem ser protegidas e tuteladas. Suas ações e responsabilidades devem ser atenuadas, pois “não sabem o que fazem”.

É certo que, do ponto de vista fisiológico e neurológico, as crianças em específico, tem muito o que aprender e desenvolver, não tendo portanto, total consciência de suas faculdades psicológicas, psíquicas e sociais. Elas são suscetíveis a toda proposta que lhe atenda em seu incrível interesse pela fantasia, prazer e novidades e por isso os adultos responsáveis por seu desenvolvimento devem sempre mediar e orientar.

Já os adolescentes, embora tenham seus sistemas fisiológico e neurológico em desenvolvimento mais avançado, mais próximo da maturidade biológica, ainda vivem alterações hormonais que “mexem com a cabeça” e a inicial consciência de suas faculdades psíquicas, psicológicas e sociais, abrem um mundo totalmente novo e os incríveis interesses pela fantasia, prazer e novidades passam a ter novas e maiores dimensões. Da mesma forma, os adultos responsáveis pelo seu desenvolvimento devem sempre mediar e orientar.

As constatações, de que crianças e adolescentes são sujeitos em desenvolvimento em suas várias dimensões e por isso precisam de orientação e mediação, não indicam que elas sejam massas físicas inertes prontas para serem moldadas. Cada criança e cada jovem é um indivíduo sui generis, dotado de gostos, interesses e escolhas diferentes entre si. Por exemplo, mesmo que sejam submetidas a mesma educação, na mesma família e colégio, na mesma época, serão pessoas diferentes, pois suas experiências externas são mediadas por faculdades internas e produzem aprendizagens e sínteses diferentes.

Mesmo na hipótese de experiências externas iguais, conforme sugeri anteriormente, essas experiências não são iguais de fato. As relações estabelecidas entre indivíduos se dão por mecanismos psíquicos e magnéticos complexos, por hora “desconsiderados” pela ciência formal. Traduzindo para o popular, o santo de um indivíduo bate ou não bate com do outro individuo por critérios que ainda “desconhecemos”. Assim também é na relação entre adultos e crianças, adultos e adolescente e crianças e adolescentes entre si.

Crianças e jovens pensantes ameaçam o estabelecido

É possível considerar, de forma razoável e racional que, as crianças, adolescentes e jovens podem pensar por si e somente serão doutrinados por uma visão se forem alijados das outras tantas visões sobre o mesmo tema. Portanto, ao desconsiderar a vontade e escolha das crianças dos colégios, atribuindo tudo que houve a supostos professores malvadões, comunistas doutrinadores, esse médico expõe todo seu autoritarismo e revolta ao ver sua forma de pensar contrariada por quem ele considera inferior e incapazes: as crianças e jovens.

Também recai sobre o médico revoltado a assunção de sua incapacidade de dialogar e convencer a partir de argumentos racionais, valendo-se da violência para impor sua forma de pensar. Essa violência, mesmo sendo direcionada aos supostos professores doutrinadores ou a uma organização impessoal, tem a mesma origem da violência contra as crianças e jovens, que devem ser disciplinados ao saírem da sua linha, tal como um pai que corrige seus filhos.

Outras contradições

É interessante também observar também outras contradições. Em geral, os que defenderam Bolsonaro, apoiam também a redução da maioridade penal, a qual pode chegar a 14 anos, segundo declarações recentes do eleito. Argumentam que o jovem pode se responsabilizar pelos seus atos e por isso pode ser punido como adulto em determinados casos.

Essa vontade de responsabilização não se aplica a todos, já que alguns tem sua juventude evocada para minimizar declarações que poderiam ser consideradas criminosas, como ocorreu no caso do filho de Bolsonaro, [34 anos] que ameaçou fechar o STF. Porém, quando se trata de uma manifestação de pensamento, contrária ao seus pensamento, esses evocam a “inocência de mentes indefesas” nas mãos dos supostos doutrinadores de modo generalizado a ponto de proporem uma lei contra o abuso da liberdade de ensinar.

Essas contradições evidenciam uma elasticidade intelectual, pra adequar cada caso a uma vontade política de impor sua forma de pensar e seu modo de vida à pessoas, o que não passa, verdadeiramente, de uma inclinação à doutrinação e à domesticação, uma vez que parte pra porrada quando os argumentos se esvaem.

Ensinar tudo a todos

A única forma de combater a doutrinação é a liberdade para ensinar e aprender. É ensinar tudo a todos como preconiza Comenius [1592-1670como fazer um site], para isso é indispensável admitir essa ideia revolucionária que as crianças e jovens pensam, são sujeitos em desenvolvimento, porém, sujeitos dos seus desenvolvimentos, assim como nós, adultos, sempre aprendendo. A história da educação é uma história de proibições e punições, e vejam onde chegamos com isso. Por que não mudar?

Comente com seu perfil do Facebook