Sentado em sua confortável poltrona de estimação, revestida de couro, desenhada pelas assimetrias e peso de seu corpo antigo, marcado pela carreira de paraquedista, postado de frente para uma centenária mesa de madeira maciça trabalhada à mão, o general apreciava um Cohiba Espléndido, expropriado da coleção de presentes do antigo presidente que, segundo sua consciência o tranquilizava, “pra onde foi, não vai precisar de uma iguaria dessa, deixar aqui no depósito seria um desperdício”. O contraste entre a antiga mesa, robusta e bruta, e o computador portátil, slim, supermoderno, parecia ironizar a realidade de velhos personagens do passado retornando ao presente por meios contemporâneos usando técnicas futurísticas.

Dedicado a curtir o momento e cada baforada de charuto cubano, o general observava tranquilo a tela de seu computador, que era a única fonte de luz daquela grande sala recentemente convertida em gabinete, para um trabalho necessário que deveria ser feito. Lembrava do jantar na casa de seu mentor, quando ainda era tenente-coronel, no qual lhe foram dados os originais do livro que o colocou nessa mesa centenária. Uma preocupação ainda atrapalhava seu pleno gozo. Relembrava as palavras do mentor: “se chegarmos lá novamente, tem que garantir a vitória, ensinar a verdade e não permitir a mentira. Fazer como aqueles que nos derrotaram antes, ocupar as cátedras, os currículos e as bibliografias”. Fácil é saber o destino, difícil é traçar o caminho.

O esforço de fumar um charuto cubano em sua idade avançada o fez adormecer ali mesmo, sentado na sua poltrona, com o corpo levemente inclinado para trás e com os pés cruzados sobre a mesa, relaxado, bateu o toco do charuto num cinzeiro improvisado, fechou os olhos como se fosse piscar e sem perceber, cochilou.

O dia amanhece e o professor chega ao trabalho mas resolve, antes de ir pra sua aula, passar na sala de um colega para combinar a agenda da semana. O café ainda estava coando na cafeteira elétrica quando sentaram-se na copa do corredor para adiantar o assunto. Não foi possível falar de trabalho como se nada tivesse acontecendo, o clima tenso em relação a seus fazeres pesava no ar. Comentavam os episódios recentes de perseguição e violência simbólica e até física. Sabiam que não era algo novo, porém havia uma novidade no ar: a motivação e a mobilização de subjetividades de caráter ideológico: o professor parecia ser o inimigo número 1 de um novo sistema, aquele que deveria ser vigiado, emparedado.

O clima da conversa era de melancolia quando um breve silêncio os fez ouvir nitidamente o som da cafeteira cuspindo vapor. A água já estava quase toda convertida em café. Não demorou para os colegas estarem no gabinete sentados à pequena mesa redonda de reuniões, cinza, feita de pedacinhos de madeira prensados e colados. A conversa ainda tratava da situação do país, um explicava para o outro sobre o livro que, em sua visão, era o que tinha levado a toda essa situação. Nele, lia-se, aquilo que seria uma estratégia do inimigo e que, aplicada contra esse inimigo, levaria à vitória. “Escrito por um general que já morreu, mas que tem muitos pupilos, políticos, intelectuais e dirigentes militares… Agora entendi que muita coisa que parecia loucura e motivo de chacota, tem uma unidade estratégica”. O espanto crédulo de um contrastava com espanto incrédulo do outro, foi então que tiveram a ideia praticamente juntos de tentar baixar o livro na internet, pois não tinham lido e a especulação, a dúvida e o impulso analítico estavam no sangue de ambos. A terceira rodada de café já havia acabado quando conseguiram iniciar o download do arquivo do livro. A curiosidade era imensa, pois, sim, o livro existia.

Um som intermitente agudo, feito um alarme que aumentava com o tempo começa a soar. De sobressalto, o general acorda. Se equilibrando na cadeira, com a cara amarrotada, as costas gritando de dor e as pernas formigando, sentia o gosto da boca defumada. Orientado pelo som do alarme, fixa o olhar na tela de seu computador portátil de última geração, esperando inutilmente a íris focar na imagem. Ainda com dificuldade, apanha óculos sobre a mesa, debruça-se sobre o móvel, amplia a imagem da tela, identifica a origem do alarme e começa a sorrir.

Relaxado e com o corpo recuperado do longo cochilo em posição desconfortável, se levanta, atende a porta para uma senhora entrar. Cabelos brancos bem penteados e arrumados, roupa social, salto baixo e joias bonitas: “Querido, o café já está na mesa faz um tempo, esperando que você venha”. Ainda em frente à porta ela ajeita o paletó do general, acerta o colarinho e pergunta: “Por que o sorriso, nem parece que dormiu torto na cadeira… já falei pra não trabalhar até tarde…”; “Querida, nunca pensei que fosse tão rápido, hoje fui despertado com sinos anunciando o nascimento de um novo Brasileiro”.

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