Os primeiros dez minutos foram os mais sofridos. Meu cérebro enviava estímulos negativos para todo meu corpo. O desequilíbrio entre respiração e batimento cardíaco e o desconforto muscular nas pernas eram sinais de que eu tinha saído do repouso e começava a me movimentar mais do que o de costume. Para quem não está acostumado ainda há pequenas dores na lombar, no pescoço, no pé. A vontade de parar é constante e forte. Eram os sinais vitais dando o ar da graça, tomando meu corpo de vida e buscando um novo equilíbrio, um pouco mais acima na escala do condicionamento físico para suportar o esforço imposto a um inerte natural.

À essa altura eu já estava um pouco confortável, mais equilibrado, porém ainda ofegante a ponto de quase não perceber as informações de distância e ritmo do aplicativo. Aliás, foi só lá pelo minuto vinte que comecei a curtir a música que saia dos fones de ouvido. A paisagem mais linda já havia passado e eu nem olhei pro lado. Concentrado em subir uma pequena inclinação e com a vista turva pela falta de oxigênio, minha preocupação era sobreviver à subida: “Meu Deus, porque que inventar isso? Que ideia de girico!” era somente o que eu pensava.

Após a subida, o corpo parece que acalmou, diante do esforço extremo, parecia que tudo que vinha depois era mais fácil. Lembrei dos tempos que entrei na faculdade e que eu corria rápido sem dificuldades. A realidade do tempo me tomou com alguma nostalgia desestimulante que somente pude perceber porque meu corpo entrara novamente em equilíbrio. Um novo desafio se colocava necessário para me estimular. Foi então que voltei a sentir os sinais vitais dos primeiros dez minutos.

As passadas já não era mais aquelas, estavam menores e mais rápidas. Pisava mais vezes no solo, porém por menos tempo. O abdômen encaixado, os braços leves e ombros soltos aliviavam o esforço da perna. O desequilíbrio dos sinais vitais permitiram maior concentração e mais velocidade. Senti uma pequenina evolução e nos idos de 30 minutos já conseguia pensar positivamente naquela experiência: “Nossa, até que correr não é tão ruim!”, foi bem nesse momento que um desnível da rua me fez pisar em falso e quase cair.

O pé direito, que ficava para o lado da pista, falhou e meu corpo se inclinou bastante para dentro do asfalto. Eu corria na contramão, justamente pra ver os carros de frente e isso foi muito importante, porque um ônibus vinha saindo do ponto, iniciando sua evolução em direção ao outro ponto, nem muito rápido e nem muito lento, mas firme no seu propósito de se movimentar, sair da inércia. Eu, com o mesmo propósito, firme em deixar aquela mesma  condição do ônibus em seu ponto de parada, passei por ele e ele passou por mim. Nossas, embora firmes, pequenas velocidades, se somaram e com o vento passando, parecia estarmos muito mais rápidos. Uma sensação de alívio me tomou após aquela experiência de velocidade e desequilíbrio.

O aplicativo já informava que faltava apenas um quilômetro para terminar e a música mais animada e estimulante da playlist começava a tocar. Foi então que, tomado por um novo ânimo eu pensei: “bora chegar bonito, pra frente”. Apertei ainda mais o passo. Me sentia leve, a respiração fluia a os músculos das pernas pareciam não sofrer tanto: “o que não faz uma injeção de adrenalina” pensei. Na volta do percurso, mesmo correndo mais rápido ainda era lento, por isso pude apreciar a paisagem. O mar calmo no final de tarde, quase sem onda. Os barcos de pescadores que no verão transportam turistas, enfileirados, voltando da ilha próxima da costa que servia de caminho cotidiano para o trabalho e agora para corridas em busca de foco e saúde. Embalado pela descida que, noutra perspectiva, turvou minha vista, rapidamente cheguei ao destino final e percebi que não é só uma subida que pode fazer faltar oxigênio no cérebro.

A vista escureceu e cambaleante eu ouvi ao fundo a voz do aplicativo: “parabéns você atingiu seu objetivo”. Sentia os efeitos do exagero de correr mais rápido do que o corpo podia aguentar. Para não cair, deitei no chão encostando no muro já bem próximo do meu portão. Como quem pegava no sono, fechei os olhos e desmaiei.

Sem nenhuma noção de quanto tempo demorou meu desmaio eu fui despertando, sentindo um desconforto nas panturrilhas, na bunda e no meio das costas, estavam quentes, pinicando como se deitado numa fritadeira eu estivesse. Abri os olhos e vi uma multidão. Várias pessoas me olhando e algumas, próximas de mim, ajoelhadas ao meu lado, impediram que eu levantasse.  Tentei virar o pescoço e não consegui, logo o imobilizaram. De rabo de olho eu vi um ônibus parado, uma ambulância branca e vermelha e pude identificar pelos macacões os socorristas que me atendiam. Antes de dormir sedado uma voz falou no meio da multidão: “Tá vendo porque eu não corro. O cara sai pra uma corrida leve e olha o que acontece!”

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