Crônica número 01

A grama estava alta e já fazia uns dias que eu me prometia cortar. Prometia pra mim e para todos aqui de casa. Isso é uma tarefa daquelas que parecem ser simples, mas na verdade são complicadas, justamente porque são simples, mas não para amadores como eu. O amadorismo é o que torna complexo a simplicidade de algo que, ao ser feito sem habilidade e sem ferramentas adequadas, torna-se difícil, porém é fácil.

Cortar grama está inscrita na lista dessas atividades simples e ao mesmo tempo difíceis, a depender de quem as realiza e com que ferramentas. Eu já cortei grama com uma ferramenta medieval, o “tesourão”, mas foi alguns centímetros. Melhor dizendo, eu nem cortei, pois comecei e não consegui reproduzir o que eu via os jardineiros que iam lá em casa faziam quando eu era criança. Parecia tão simples…

Depois de adulto eu comprei uma máquina, mas ela não é adequada para cortar a grama. Eu deveria ter notado já que no anúncio dizia “aparador de grama”, porém, diante da crise e do preço e da pouca grama a cortar eu resolvi arriscar. O resultado? Cortar a grama tornou-se mais uma daquelas atribuições simples, mas que se tornam complicadas e que, justamente por isso, adiamos e quando fazemos é um evento.

Hoje foi o dia de cortar grama. Como sempre eu cheguei de uma manhã de exercícios com minha esposa e nem entrem em casa para não perder a coragem – Hoje eu corto essa grama! – tirei o tênis, e apenas de calção, com o maior espírito da jardinagem negacionista – aquela que acha que nunca vai se machucar com o fio da roçadeira e nem uma pedra vai lascar no carro na garagem. Nem chinelo eu coloquei, por que depois eu ia tomar um chuveirão para arrebatar o calor e o jussá da grama. Lá fui eu pra faina.

O tempo foi passando e na medida que eu cortava a grama o céu se encobria de nuvens, facilitando muito meu trabalho, afinal de contas o sol de antes do almoço é sempre ardido. Isso me animou tanto que eu cortei a grama toda [costumo deixar um pedaço pra depois, que nunca faço], rastelei e guardei todo cisco em sacos. Com a sensação de dever cumprido, olhando para a grama baixa, mas cortada de forma irregular eu senti uma satisfação de ter, mais uma vez, economizado o dinheiro do jardineiro, a mesma que sinto quando almoço em casa e lembro o quanto economizei por não ter pedido marmita. A diferença é que no almoço, o serviço caseiro é melhor que o contratado. Mas, como dizem os mais velhos, “um abraço pro gaiteiro”. Serviço feito e agora só faltava o chuveirão pra entrar e descansar, mal sabia eu que nunca descansaria como desta vez.

Embora eu estivesse com muito calor, o tempo já não era mais de sol, estava brusco e ameaçando chuva. O que eu achava bom, pois regaria a grama e eu, mais uma vez, economizaria um dinheiro evitando a rega com mangueira. Achei bom também porque o tempo ter fechado me incentivou a tomar banho quente no banheiro dentro de casa, o que ajudaria a relaxar e a descansar melhor. No caminho do quintal pra dentro encontrei o povo de casa saindo. O filho ia passear com o cachorro e a esposa foi encontrar com uma amiga e tomar um café e conhecer a casa nova.

Entrei no banheiro ao mesmo tempo que o portão fez o barulho encaixando no batente indicando que terminava o percurso da abertura do muro e fechava o quintal. Ao entrar no chuveiro, eu apoiava a mão direita no puxador do box. E com a mão esquerda eu tentei me segurar no chuveirinho, que soltou do chuveiro e eu cai no chão feito uma jaca que desprende do pé e estatela no chão.

Na escola ensinam que existe uma força que nos ajuda a caminhar e a ficar em pé, é a força do atrito. Ela pode ser anulada ou diminuída consideravelmente quando alguma substância viscosa ou líquida se coloca[ou é colocada] entre as superfícies que se atritam. Eu nunca entendi direito essa coisa de atrito, afinal sempre fui de humanas. Infelizmente, hoje eu aprendi, entendi a força do atrito empiricamente, experimentando a sua falta, causada por resquícios de sabão e creme que ficaram num box com caimento ineficiente.

Faz 40 minutos que eu cai e estou aqui pelado, sentado no vaso sanitário olhando pro meu corpo e pensando que eu poderia ter morrido antes de ter tirado a cueca ou após ter tomado banho, afinal de contas, morrer todos vamos, mas precisava ser pelado e fedido?

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