Crônica número 2

Isso sempre acontece comigo! Sentei pra trabalhar e pronto, lá vem, deve ser a pandemia. Se bem que pode ser o café. É acho que é o café. Todos os dias é sagrado, eu sento na frente do computador, ligo e começo a ler e-mails, tomo um gole de café e já bate aquela vontade de cagar. Eu deixo o café esfriar um pouco, pois tenho trauma de queimar a língua, mais ainda de queimar o céu da boca com café quente. Aff, fica aquela sensação ruim, áspera e dolorida. Por isso sempre deixo esfriar um pouco.

No tempo de esperar o café esfriar, as vezes até esqueço e ele esfria, principalmente em dias frios. Daí eu bebo frio mesmo, pois o café é o ouro verde e não tá dando pra desperdiçar nada nessa crise. Ainda mais pra mim que moro sozinho e tenho que bancar tudo. Eu reutilizo até palito de fósforo.

Hoje eu estava respondendo um e-mail quando fui chamado para uma conversa no webconferência do trabalho. Eu não ia aceitar, depois vi que meu chefe estaria e não tive como fugir. Pior que não dava nem pra entrar no celular, porque o aplicativo que a empresa usa é ruim e no celular não tem condições de ter uma boa experiência. O jeito era segurar e fazer logo a reunião e torcer pra ser rápido. No limite, desliga a câmera e áudio e sai correndo pro banheiro.

Quando a reunião começou já estávamos há uns 7 minutos ali, cada um olhando pra cara do outro constrangidos, esperando o chefe entrar. Era nítido o climão, mas quem vai criticar o chefe?! Eu já estava começando a suar, tinha dado a última golada no café, frio. A barriga reagiu e deu a primeira cochada. Eu sou experiente em segurar, e é até bom, porque quando sai o alívio é maior.

O chefe chegou e a reunião foi até rápida, mas pra mim, parece que demorou um século. Assim que foi terminando e o pessoal saindo ele me chamou pra fechar uma última demanda. Eu quase fingi ter um derrame pra sair da sala, mas, nessa crise, não dá pra deixar a pulga atrás da orelha do chefe, temos que estar sempre prontos. Pior que não era nada, era apenas a conferência de uma data. Ele nem bem saiu, eu saí em seguida.

Minha mesa de trabalho na pandemia fica na cozinha. Na verdade, é a mesa da cozinha. Metade dela é a área de alimentação e metade é meu escritório. Só que eu fico na extremidade mais longe do banheiro, que fica do outro lado. Para piorar, o fio do computador fica do meu lado esquerdo, como se estivesse fechando minha saída. E eu precisava muito sair pois já sentia dores que naquele momento, e não dava nem pra barrar a saída inevitável, pois ela já havia começado e tudo seria pior.

Levantei da cadeira e pulei o fio e sai correndo. Eu estava de meia e derrapei no piso frio, ao mesmo tempo que corria já ia me despindo com o objetivo de sentar no vazo e me aliviar. Quando sentei saiu de uma vez, o tranco da sentada, que também era uma freada de um corpo que vinha em alta velocidade, ajudou a sair tudo de uma vez. Senti uma sensação de alívio como nunca e mal sabia que seria a última.

Depois de curtir aquele momento de sucesso de uma empreitada arriscada, eu olhei pro lado e me dei conta que não tinha papel. Levei as mãos ao armário do lado da pia e nada. O pacote estava no chão, do lado de fora rende à porta do banheiro, dentro da sacola de supermercado. Eu não tinha guardado ainda.

A minha situação era estranha, mesmo pra mim que moro sozinho. Eu tinha acabado de soltar uma bomba no vazo, que eu tinha aguardado por um tempo, o que aumentou muito a pressão e isso fez com que a área de escape ficasse completamente tomada de estilhaços da bomba. Seria preciso uma operação de limpeza que se iniciaria ali, com limpeza a seco e terminaria, por óbvio, no banheiro, com auxílio da agua do chuveiro. Afinal de contas, como diria minha vó, Sá Dita, a água lava tudo, só não lava a alma. Mesmo assim não dava pra ir direto pra parte da água, pois eu estava no lavabo e o banheiro era no andar de cima.

Não tive escolha, precisava levantar e pegar o papel, eram dois passos, quase um metro de distância, uma tarefa muito simples, que eu já havia feito muitas vezes, porém, nunca de meias. As meias era daquelas finas, sociais, de usar com sapato. Já sentiram como elas deslizam? Pois é!

Minhas calças estavam arriadas no pé e eu estava sem camisa, que tirei para enxugar o suor após o esforço de segurar e o esforço de correr. Eu levantei, mas não muito, pois na minha situação não poderia ficar totalmente em pé, se assim fizesse os estilhaços da bomba de um lado iriam encostar nos estilhaços da bomba do outro lado e seria nojento, nunca permiti que isso ocorresse. Então eu estava ao mesmo tempo tendo que dar conta de andar, mas precisava manter uma determinada postura, que parecia… como posso dizer, com um babuíno andando. Consegue imaginar? Pois é!

Quando eu fui me inclinar para apoiar a mão no chão e caminhar tal qual um babuíno em direção ao papel higiênico, a maldita meia escorregou. Meus pés foram os dois pra trás, pois estavam travados pela calça jeans que era nova, e por isso pouco flexível e justa. Eu nem tinha conseguido colocar as mãos direito no chão e me desequilibrei. Quando olhei pra frente eu estava caindo em direção ao suporte do papel higiênico, que vazio de rolo, ficou com uma ponta exposta, a mesma que entrou na minha garganta, pois quando eu vi que ela ia atingir meu rosto, eu virei de alguma forma que foi pior, ao invés de ficar cego, morri perdendo sangue da jugular, cortada pelo suporte do papel higiênico.

O corte nem foi grande, mas o tempo que eu fiquei ali foi suficiente para partir desta para uma melhor. Depois que tudo isso aconteceu, enquanto eu estava ali deitando, não sabia ao certo se morto, ou ainda moribundo eu olhei pra frente pela porta e vi meu computador no chão. Quando sai correndo derrubei tudo, mas a câmera da reunião ainda estava ligada, eu não tinha desligado.

Antes de fechar os olhos pela última vez eu vi meu chefe desesperado tentando me chamar, ele viu o acidente! Nessa hora eu não conseguia pensar em nada mais, apenas eu torcia para estar morto quando o socorro chegasse, pois eu não merecia viver depois de quase morrer pelado, de cu sujo virado pra cima e ainda tendo sido gravado pela cam do app de vídeo conferencia do trabalho. Melhor era morrer!

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